A competição e a evolução da humanidade

Muito se discute sobre a competição e seus efeitos nocivos na gestão em um ambiente empresarial. Na grande maioria dos casos ela é encarada como algo muito negativo dentro de ambientes que precisam ser colaborativos. Quem nunca ouviu algo do tipo: “Aqui na nossa empresa nós não incentivamos a competição! Queremos fomentar um ambiente puramente colaborativo!”. Será que realmente a competição elimina os comportamentos sociais, como colaboração e respeito?

Há um livro muito interessante, Top Dog, onde os autores utilizam vários conceitos como a neurociência e a psicologia para explicar que a história não é bem assim. Para aqueles que acreditam que a competição é o oposto da cooperação, se esquecem de um fator crucial:

Para competir ambos os oponentes precisam cooperar com as regras: existe um acordo mútuo de cooperação que governa a competição. Os hormônios que nos levam a competir são os mesmos que nos levam a cooperar.

E há algo importante a se discernir aqui, que é a diferença entre a chamada competição adaptativa e a não-adaptativa. Apenas o primeiro caso é realmente uma competição, onde os participantes respeitam as regras com perseverança e determinação para se tornarem os melhores naquilo que fazem. Os competidores, aqui, tentam ser os melhores em um determinado assunto, e não há mal algum em não ser bom em outra coisa.  Já a não-adaptativa traz uma série de malefícios, como participantes inseguros, não respeitando as regras e não aceitando a derrota. Geralmente estes estão competindo quando ninguém está.

Tá certo, concordamos que o tema é polêmico, mas vale uma reflexão. E para não tirar o gostinho da leitura do livro, trazemos aqui um trecho muito interessante que descreve os potenciais benefícios da competição e porque os autores acham ela é o motor de toda a evolução do mundo, da inovação, dos desenvolvimentos de mercados e também da democracia.

O cenário são os Jogos Olímpicos de Beijing, dia 11 de Agosto de 2011, no lindíssimo Cubo Aquático. A equipe da França é a favorita nas finais do revezamento 4 x 100 estilo livre. O super nadador francês Alain Bernard faz uma previsão de que a equipe vai “esmagar” a equipe norte-americana. Por coincidência, as equipes competirão lado a lado nas raias 4 e 5. E neste caso em específico, na piscina haveria uma dúzia de recordistas, como Michael Phelps, o australiano Eamon Sullivan e o próprio Alain. Para completar, o time australiano, também favorito.

Os primeiros 100 metros foram vencidos em 47.24 segundos por Sullivan, detentor do recorde mundial. Phelps chegou em segundo a 3/10 de segundo atrás, junto com a equipe francesa.

A competição nos últimos 100 metros seria entre o americano  Jason Lesak, o nadador mais velho nos Jogos Olímpicos, com 32 anos, e Alain Bernard. Na batida dos 50 metros finais Lezak estava 3/4 de corpo atrás do francês. Segundo ele, quando notou esta diferença ele abandonou a esperança. Seus músculos e pulmões doíam imensamente, e ele sabia que a sua velocidade só tenderia a diminuir nos 50 metros finais. “Eu disse a mim mesmo que não haveria chance de eu conseguir isto. Ele era o detentor do recorde mundial. Então eu disse a mim mesmo para somente nadar a minha própria corrida.” Mas não foi o que aconteceu. “Conforme eu me via mais próximo dele, a minha confiança aumentava. Pouco a pouco. E então eu achei que eu realmente teria uma chance.”

Eu nunca senti isto antes

Nos últimos 15 metros Lezak ultrapassou Bernard e ganhou o ouro por um braço esticado. Lezak conseguiu incríveis 46.06 segundos – um segundo a menos do que o recorde mundial e dois segundos a menos do seu melhor recorde individual.

Muitas coisas aconteceram naqueles 46.06 segundos. Mas certamente todos foram disparados pela presença de Alain Bernard.

Ou como o Presidente Dwight Einsenhower disse: “O que importa não é necessariamente o tamanho do cão na luta, mas sim o tamanho da luta no cão”

  • Fernando Menzzano

    Muito bom o texto! A competição é algo essencial para fomentar a disputa, e consequentemente o desenvolvimento individual e da equipe como um todo. Eu, já fui nadador, e posso afirmar que se não tivesse um cara melhor que eu na minha equipe, eu ficaria desmotivado, e não me esforçaria tanto para melhorar meu tempo, além de ele ter sido um bom exemplo para que eu melhorasse a minha técnica. Quando este conceito é aplicado para o ambiente profissional, pode trazer muitos benefícios para cada funcionário e para empresa como um todo, mas para isso, é necessário definir muito bem as regras do jogo para não cair no tipo de competição não-adaptativa.