A Epidemia Escarlate

Este post faz parte da nossa série “Os gerentes zumbi”. Confira os outros episódios e envie a sua história!

tomatoEra de manhãzinha. Cosmo havia acordado mais cedo que o de costume para ir ao seu primeiro dia de trabalho na nova empresa. A empresa era uma de games muito comentada no seu grupo de amigos. Um conhecido havia confidenciado que essa empresa tinha tido recentes problemas com seus funcionários: muitos haviam sido demitidos por motivo de “não adequação à proposta da empresa”. Alguns outros haviam simplesmente pedido pra sair.

Mesmo assim, Cosmo não se abalou. Sentiu-se seduzido pela proposta financeira e a proximidade com a sua casa. E, ademais, pagaria pra ver: one man’s fun is another’s hell, ouviu em alguma música.

Colocou sua camiseta com a ilustração mais pop-cult-bacana que tinha. Vestiu um jeans confortável, um tênis e rumou para o seu primeiro dia.

Lá foi muito bem recepcionado pelo gerente de projetos, que se identificou como K. K apresentou euforicamente toda a equipe a Cosmo. Cosmo até achou curioso que a equipe não demonstrasse a mesma animação que K, mas pensou que pudesse ser algum projeto que estava com o prazo curto, ou alguma outra justificativa cabível como “aff, hoje é segunda”.

Um pouco depois das 10 da manhã, um time da equipe se levantou e convidou Cosmo para tomar um café. Tão logo Cosmo aceitou, os colegas se dirigiram rapidamente à saída. Ficando um pouco pra trás, viu de relance o olhar furtivo de K, que fez menção de abrir a boca, mas não se pronunciou.

Já no café, um dos colegas quebrou o silêncio logo dizendo a Cosmo:

Cara, seja bem vindo ao inferno.

Sem entender muito, Cosmo ficou ouvindo com atenção as reclamações dos novos colegas. Eles diziam que K vivia puxando o pé deles, cobrando prazos, comprometimento cirúrgico com os horários e reclamando frequentemente da produtividade.

“Eu fiz sozinho toda a arte desse último jogo, já que os outros artistas foram demitidos e, mesmo assim, ele teve a cara de pau de me cobrar de não ter vindo trabalhar no sábado de manhã!” – reclamou um outro. Cosmo estava aturdido, tentando absorver o que se passava. Ora, o time estava exaltado, talvez… fosse a tal entrega, quem sabe? Mas, não, calma. Ele disse “sábado de manhã”???

Logo que voltaram ao estúdio, K comentou, com um tom fortemente sarcástico: “Café demorado, ein!”. Cosmo não conseguiu entender se era uma brincadeira ou uma crítica. Sorriu pesadamente, enquanto os colegas ignoraram e seguiram mudos a seus lugares. K, com o rosto escarlate de raiva, respirou fundo e voltou o olhar para a tela do pc.

O dia se seguiu com essa tensão no ar. Cosmo percebeu que havia algo de errado mesmo, e sempre que precisava perguntar algo a K, sentia-se profundamente pesaroso. Era evidente que K não conseguia controlar sua equipe e o fazia da pior forma: forçando sua posição de gerente. Todos estavam exaustos com o seu posicionamento e procuravam aliviar a frustração criticando tudo. O K, a empresa, a cor das paredes.

Evidentemente, isso atrapalhava o desempenho dos funcionários. Um ciclo vicioso estava instaurado: as equipes se desmotivam, K ficava insatisfeito, K cobra mais, as equipes não correspondem, K fica mais e mais furiosamente escarlate, as equipes se desmotivam, retorne ao início.

Seria K uma vítima desse vírus parasita que o torna um ser não-pensante, impulsivo e escarlate? O que o faria mudar de atitude, incentivá-lo a incentivar sua própria equipe?

Cosmo não tinha essas respostas. Optou por sua integridade mental e pediu demissão na manhã do dia seguinte. Hoje em dia não aceita uma proposta de trabalho sem antes buscar referências com alguém que trabalhe (ou tenha trabalhado) na empresa. E, por via das dúvidas, tem se preparado psicologicamente para esse iminente Z-Day.