Contra fatos não há argumentos

Muito se fala sobre como a Google está reinventando a gestão de pessoas e fazendo disto o seu principal diferencial competitivo e fator crítico para a inovação e sucesso do seu negócio. E ela também faz um bom marketing desta estratégia, para atrair novos talentos e também mostrar para seus funcionários que a sua grama sempre é mais verde. Até um filme foi feito, Os Estagiários: não é uma obra-prima mas rende umas risadas (os atores particularmente são muito engraçados).

E não se pode questionar a eficácia da estratégia da Google. Do ponto de vista de recrutamento, são mais de um milhão de currículos enviados todo ano – oras, não haveria uma procura com estas proporções se a expectativa não fosse das melhores possíveis (lembrando que estamos falando de uma geração que escolhe muito bem para onde vai). E uma vez lá dentro não precisamos falar da grande capacidade destas pessoas inovarem e criarem produtos que realmente estão mudando o nosso dia a dia.

Mas este artigo não tem a intenção de fazer propaganda da Google. Aposto que vários leitores também têm suas próprias observações sobre a empresa, assim como eu. Mas nesta semana estava lendo este artigo, escrito há quase um ano, que fala sobre a utilização de dados quantitativos e técnicas sofisticadas para garantir que toda esta estratégia de recursos humanos empregada pela Google realmente funcione. Recomendo a leitura para todos os profissionais envolvidos com a gestão de pessoas. E então um dos comentários de um leitor me despertou a atenção:

…as pessoas tem vida, mortes em suas famílias, problemas com drogas, esposas, crianças doentes, problemas de saúde, depressão; e não respondem com consistência a um algoritmo

Num primeiro instante tudo isso fez muito sentido para mim. E acredito que para você também. Parece uma constatação tão evidente. Digna de uma conclusão do tipo “somos pessoas e não máquinas!”. Mas depois de refletir um pouco acho que cheguei a uma conclusão: se olharmos pelo lado das empresas tentando controlar os colaboradores, certamente vamos defender que não somos consistentes como uma máquina e criticar tais análises quantitativas; por outro lado, quando olhamos pelo lado de construir a nossa reputação dentro das empresas, queremos (ou deveríamos querer) justamente mostrar que tais imprevistos que surgem em nossas vidas não deveriam nem sequer abalar o real desempenho que apresentamos em nossos trabalhos.

Fui até o fórum Stack Overflow para dar uma espiada em como estava o ranking dos colaboradores do site.

jon skeet | stackoverflow
Jon Skeet, o número um do Stack Overflow

Será que o Sr. Jon Skeet, um engenheiro de software da Google de Londres (nota: a Google aparecer aqui novamente é apenas uma coincidência), que respondeu a mais de 28 mil perguntas e já acumulou mais de 245 medalhas de ouro no fórum é um super-homem? Será que ele nunca ficou doente ou teve qualquer outro tipo de contra-tempo? Mas certamente todos eles foram esmagados pelo grande profissional que ele é, sustentado por todos estes dados que a experiência de gamificação do site criou para ele. Até fã-clube ele tem.

E também fui olhar o meu desempenho no Wannadoo nos últimos 3 meses. Particularmente um gráfico que mostrava como eu tinha conseguido os mais de 40.000 pontos neste período. Ele me mostrava que ao mesmo tempo eu não era uma máquina produzindo a mesma coisa todos os dias, eu já havia contribuído em muito para a minha empresa (de fato outros gráficos contam muito mais do que eu já houvera feito na empresa).

wannadoo_dashboard
Meu histórico de pontos no Wannadoo

Ou seja, quando temos os dados e algoritmos para transformar estes dados em informação, temos algo muito mais rico para nos ajudar a contar a nossa história e o nosso desempenho dentro da empresa. Eles são nossas testemunhas contra boatos, rumores, perseguições e achismos. Um aliado ao invés de um vilão que quer nos comparar a máquinas e nos derrubar em uma avaliação injusta. Pense nisto!